Julgo não revelar segredo bem guardado
se disser sem rodeios
o sapo é dos mais feios...
No entanto, falar de fealdade e beleza
é sempre complicado.
O que uns dizem ser feio, outros há, com certeza,
que acham aprimorado.
Isto vem a respeito de um sapo meu amigo
que vive num jardim
Sempre nos demos bem e ele fala comigo
sem ter medo de mim.
Ora um dia, à tardinha, ao abeirar-me dele
-talvez culpa da luz que lhe batia em cheio-
pareceu-me mais disforme, mais nojento de pele...
...em suma, ainda mais feio...
E porque nós entre nós dois reina certa franqueza,
«Amigo, a natureza
quando te fez assim, tão feio, fez tolice!»
O sapo olhou-me então, de olhar atento e fito,
e comentou, sem zanga, com calma e amizade:
«Olha que tu também nada tens de bonito...
... a falar a verdade!»
Vendo as coisas assim, a frio, com atenção,
eu penso que ambos nós falámos com razão...
Retirado de «As histórias do avozinho»




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